| In pain |
A Maratona do Rio era uma prova importante na minha temporada de 2016, a mais importante do primeiro semestre. O ano de 2016 está sendo dedicado a muito treinamento focado na corrida e a pouquíssimas provas, se comparado aos anos anteriores. São apenas 4 provas, sendo 2 maratonas e 2 triathlons (half Iron distance).
Os treinamentos foram bem executados, conseguimos melhorar a forma, a potência, a cadência, a alimentação, a cabeça, a hidratação, a resistência ao calor, muita coisa. Meus tempos de corrida de longa distância vieram caindo todos ao longo do processo de preparação para essa prova. Quebrei meu recorde de 10k, 18k e 21k. Estava tudo pronto pra derrubar o meu tempo de Maratona.
Fiz uma semana de taper perfeita, fiz todos os treinos, consegui dormir pelo menos mais 1 hora por dia todos os dias da semana, aumentei minha ingestão de carboidratos e sais, assim como cuidei da minha hidratação pré-prova. Tava prontinho pra ir com tudo pra Maratona.
Só que a vida sempre nos traz supresas né...
Eu que tinha perdido pro calor na prova de Caiobá, tinha treinado para encarar o calor do Rio. Mas no fundo torcia por uma temperatura mais amena, pois isso certamente contribuiria para um tempo menor de prova. E não é que esfriou no Rio na semana anterior a prova, e esfriou tanto que deixou um monte de gente gripada. Gripe geral na galera.
Na véspera da prova, acordei com muito mal estar. Corpo fraco e dolorido sem vontade de levantar da cama. Acho que fiquei até uma 11hs da manhã na cama, coisa que não me recordo de ter feito nos últimos 5 anos, pelo menos. Meu mal estar foi confirmado ao medir no termômetro a temperatura de 38 graus. Voltei pra cama e ali fiquei.
Passei o dia inteiro sem apetite, vendo filmes, ora acordado, ora cochilando. Só levantei para comer (pouco) e ir ao banheiro.
Tomei anti-termicos e a febre ia e voltava. E assim foi até umas 15hs quando decidi parar com os anti-termicos para ver como o meu corpo realmente estava. Conversei muito com o meu técnico, Raul Furtado, pra avaliarmos a viabilidade de tentar ou não correr a maratona. A vontade de correr a prova era muito grande, mas naquele momento era impossivel avaliar. Pois o meu quadro ainda era muito instável. De tardinha, como sempre, a febre voltou, descansei mais, jantei e a febre melhorou de novo. Tudo isso rolando na cama o dia todo e no máximos alguns passos pela casa.
Antes de me deitar para dormir, sempre pensando positivamente, arrumei minhas roupas da prova, arrumei minha alimentação de prova, tudo como na esperança de poder competir. Fui pra cama cansado, mas tranquilo. Ajustei o alarme e fui dormir.
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Acordei zerado!!! Sem febre... E agora? Só tinha um caminho. Me alimentar, me arrumar e partir para o ponto de largada. Procurei manter meu corpo mais aquecido do que normalmente. E mandar brasa!!!
Fiz bem os primeiro 10/15km dentro do programado o tempo estava fresco mas a umidade bem alta. Depois disso meu desempenho caiu um pouco e comecei a sentir fraquezas já no início da segunda metade da prova. Lembro me bem do ano passado, descendo a Niemeyer cheio de orgulho e alegria. Mas nesse ano, já estava sofrendo.
A partir de perto do km 21, vinha mentalizando o encontro com o meu filho que me esperava em Ipanema lá pelo km 30 da prova. Já na segunda metade da prova, eu desacelerava bem nos postos de hidratação bebia água e continuava num pace lentíssimo mis alguns metros num corpo já pesado e com baixa performance.
Encontrei meu filho. Parei, dei um beijo na cabeça dele. Juntei forças, e mais forças e segui determinado a terminar aquela prova. Meu corpo queria parar ali e ficar agarrado ao meu filho. Mas minha cabeça não deixou. A sensação de torpor e anestesiamento de um corpo que não responde direito é horrível, mas eu não quis saber. Mentalmente eu estava muito mais forte do que a derrota pro calor em Caiobá.
E assim fui, 31, 32, 33, 34,...42.2km...
Fui me arrastando, fui sofrendo, fui arrancando energia de todas as células, a cabeça estava forte, mas o corpo, apesar de bem treinado, estava fraco. É uma sensação horrivel de mal estar. Mas a cabeça é soberana e o corpo vai obedecendo. Vai tirando a energia dos diversos lugares e mandando pra pernas. Não me lembro o que se passou nos últimos kilometros, a visão começa ficar embaçada e tudo a sua volta começa a querer rodar.
Pela primeira vez tive a sensação que dei tudo que tinha pra dar.
Cheguei.
Cheguei, andei um pouco, bebi um pouco de isotonico. E sentei na calçada com muito enjoo. Vomitei várias vezes. Fiquei esgotado. Nem consegui ir ver meu filho. Passei ainda muitas horas sem me alimentar e enjoado. Só mesmo depois de tomar Plasil consegui comer.
Conclusão: valeu a pena ter forçado a barra e ter ido -- aprendi a tirar força mesmo quando achei que não tinha mais força, se não tivesse tentado a frustração de não ter tentado seria gigante. Seria mais dolorosa do que o mal que fiz para o meu corpo. Até certo ponto, o corpo recupera mais rápido que a cabeça.