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| An Ironman with no soul |
Foi uma prova que já tinha feito no ano passado, uma prova de distância equivalente ao 70.3 do Ironman. Ano passado foi a minha estréia nessa distância com 5:32hs e 10a. colocação na categoria. Fiz o melhor que pude no ano passado, sem nenhum compromisso de tempo, vinha de uma semana de uma recuperação de lesão e não tinha certeza se conseguiria cumprir a etapa da corrida na prova. No final deu tudo certo, sofri com um calor atípico e inesperado durante a corrida, mas fiquei feliz com a prova, com o meu tempo, com a organização da prova, tudo era festa na minha estréia.
Já esse ano, com um full Ironman no curriculo, fui ao TH3 para seguir minha trajetória positiva e baixar o tempo do ano passado. Fui mais confiante, fui mais tranquilo, com a certeza de que tinha uma técnica mais apurada nas três etapas do triathlon, mas especialmente na corrida. Tanto pelo tempo de dedicação específica a corrida, como a experiência vinda de uma maratona (a do Rio) e de um full Ironman (o de Barcelona). Além disso, me sentia muito mais confiante no meu plano de hidratação, nutrição e suplementação já testado na maratona e no full Ironman. Até o hotel desse ano era melhor que o do ano passado, pois ficava a menos de 5 minutos andando do ponto de largada. Adicione-se a isso tudo, meu corpo sem nenhuma lesão relevante, devidamente descansado e bem nutrido, suplementado e hidratado para a prova. Em relação aos equipamentos, estava bem acostumado com a a Pink, minha bike TT que nem "fit" tinha no ano passado e com o "trisuit" que já tinha usado no full Ironmam. Com tudo isso feito, e bem feito, os meus objetivos de redução de tempo eram bastante agressivos. O objetivo da prova era fazer abaixo de 5h, ou sub-5 no jargão dos atletas. E o meu maior ganho de tempo deveria vir da corrida. Se realmente fizesse esses tempos, era bem provável estar entre os primeiros da categoria 45-49 anos, com chances enormes de subir ao pódio.
Bom, vamos a prova...
Já na natação, fiz um tempo pior do que esperado. Esperava fazer em uns 35 minutos, mas fiz mais de 45 minutos. E o pior, dentro da água, achei estar fazendo uma boa prova, num bom ritmo, com uma navegação acertada, mesmo com uma mudança de circuito que fez que umas das "pernas" do circuito tivesse ficado muito longa. Depois ouvi falar de correnteza, que realmente fez com que os tempos de natação tivessem acima do ano passado. Mas mesmo assim, minha colocação relativa, já tinha ficado bem aquém do esperado.
Parti para a transição já meio confuso e encucado com a minha má performance. Acho que posso ter demorado 1 a 2 minutos a mais na transição, pois demorei um pouco para tirar o swimsuit e para colocar a minhas barrinhas nos bolsos do trisuit. Mas isso é um pequeno detalhe. Parti pro pedal para compensar minha natação. Ultrapassei muita gente, analisando as tabelas de tempo, devo ter ultrapassado mais de 100 pessoas ao longo do trajeto. Fiz um pedal bem consistente, sem muitas oscilações. Melhorei o meu tempo em relação ao ano passado, mas ainda assim muito abaixo das metas que tinha estabelecido. Cheguei meio atordoado pra transição, acabei cometendo uma falta totalmente passível de punição. Vim semi desmontado da bike na linha de desmonte, e ao invés de desmontar imediatamente antes da linha de desmonte, acabei desmontando imediatamente depois da linha.
Fiz a minha transição relativamente rápida, mas já sai pra correr esperando ser punido com 5 minutos parados no penalty box. Passei pela área de punição, mas não vi meu número, pensei: "ainda não deu tempo pra avisarem da minha punição, não vou escapar na próxima volta...". Segui minha corrida, num pace razoável, com calor, mas num trecho inicial com muitas sombras. Após os 3km iniciais, sol de rachar na cabeça, sem vento e sem sombra. Segundo noticiário local, 35 graus com sensação de 40. Sei que abri o bico no km 8. Fiquei com medo de desmaiar, e a partir daí desisti de correr. Entrei num esquema de anda e corre. Na verdade, era um rasteja e se arrasta. Eram 2 voltas de cerca de 10km, quando passei novamente pelo penalty box, mais ou menos na metade da prova quase já estava torcendo para o meu nome estar por lá e descansar por 5 minutos. Mas acho que no final ficaram com pena de mim e não me aplicaram a punição. E assim fui me arrastando por longos 13km entre anda e corre até cruzar a linha de chegada.
Pensei muita coisa ao longo dessa corrida. Nem me lembro mais direito o que pensei. Mas tinha a certeza que meu tempo seria muito ruim. Mudei completamente o meu objetivo de prova. Decidi que teria que terminar de qualquer forma. Que desistir não era uma opção. Me hidratei e tomei meus sais com a maior consistência e afinco que pude. Passei a andar nas sombras que apareciam para baixar minha temperatura corporal. Passei a jogar água na minha cabeça e na nuca. Nos últimos km da prova, pode se dizer até que eu estava descansado. Acabei me poupando até demais. No entanto, definitivamente, quem me derrotou não foi o calor, foi a minha cabeça.
Acho que um misto de excesso de confiança, falta de ritmo de prova, falta de experiência de correr no calor, falta de um objetivo maior, uma série de faltas e excessos que ainda não terminei de listar. Mas com certeza acho que o mais importante foi a derrota mental. Parecia que durante a prova, aquela chama que fazia o corpo se mexer tinha se apagado. Ou melhor, estava derretendo o meu cérebro.
Tomar uma decisão, literalmente, no calor de uma prova, é muito difícil. E a decisão que tomei na hora, foi completar a prova, mesmo que ficasse em último colocado. O tempo já não estava mais importando em nada. Mas depois que se termina a prova, que se consegue fazer uma ponderação com menos emoção e mais razão, dá para ver que mesmo para as condições de calor extremo da prova, o tempo de corrida deveria ser bem melhor. E para saber "arrancar" esse corrida melhor de dentro de mim só mesmo a minha cabeça ter essa força. Mas ela se contentou em completar a corrida.
E como, segundo Huo Yuanjia, um dos maiores mestres das artes marciais na China, "o objetivo das competições não é ganhar, mas sim apontar as nossas fraquezas (...) para que assim possamos evoluir". A minha fraqueza maior foi me entregar ao calor antes mesmo dele me derrotar. Faltou mais força de vontade. Faltou alegria também, fiz uma prova sem muita empolgação, emoção, parecia um entrega técnica que eu deveria fazer. Nem parecia que eu fazia tudo aquilo por prazer, ou melhor, para ser um exemplo de vida e uma inspiração para meu filho.
Além disso tudo, muitos aprendizados podem ser tirados dessa prova. Umas delas é muito obvia, e é de conhecimento comum. Nem tudo sai como planejado. Na verdade, é muito dificil, as coisas sairem como planejado, normalmente saem diferente. Porém quando sai muito do planejamento, eu não deveria ter "chutado o balde", deveria dentro do que era possível fazer o melhor possível. E isso, definitivamente eu não fiz.
Já pensei muito nessa prova. Já pensei em desistir do triathlon por ser muito duro, mas me lembrei que estou no triathlon justamente porque é muito duro. Saí de Caiobá, pensando em não voltar mais lá. Pensei: "chega de passar calor nessa cidade...prova agora só em temperatura amena...".
Mas pensei melhor, tenho um trabalho inacabado naquela cidade.
Ano que vem estarei lá para terminar esse trabalho...
Caiobá, até o ano que vem!!!
Dessa vez de corpo e alma!!!